colchetes

olho esse rio que corre e me dá vontade de escrever. 

 

é a vigésima vez que estou nesta balsa. em apenas uma semana. fiz praticamente o mesmo percurso de uma hora para chegar até aqui. saí de casa, coloquei meu fone, peguei o metrô, troquei de estação, comprei um café, esperei a balsa chegar, entrei. entrei por cima, por baixo, pelo lado. fiz todas as entradas possíveis, me enfiei em todos os cantos, até mesmo os proibidos. 

 

nos 20 minutos de duração da viagem, eram no mínimo quatro idas e vidas, por dia. brinquei de correr entre uma balsa e outra. era sempre a última a sair. perdi muitas delas.

 

nunca sabia se estava indo ou vindo. nunca sabia onde era frente e onde era atrás. na verdade, não tinha muita importância. nesse lugar cercado de terra, eu queria a água. apenas ela, e o toque do vento. 

 

gosto de estar nesse lugar que não é um lugar. desses parênteses entre um destino e outro. nova york é um parêntesis. talvez essa balsa seja um colchete. gosto de me sentir flutuar, desse acaso que me leva para o desconhecido. 

 

faço do caminho minha moradia. vou com o rio, quero desaguar no mar. me perco, para me achar. 

 

sinto que a água de hoje não é a mesma de ontem. essa água não volta mais. ela vai, vai, só vai.  sinto que ela está angustiada. sua dança já é outra. ela me embala, danço com ela. 

ela conversa comigo, me diz como está seu dia. eu fecho os olhos e escuto, apenas escuto. ela me diz tantas coisas. meu cabelo responde à altura.

 

quero me jogar nela, quero alcança-la. quero sentir entrar em mim. ela parece ser tão infinita, parece estar tão distante. tenho medo de me lançar.

 

em seu reflexo vejo o dia se tornar noite. estamos chegando. vejo as pessoas olhando pra nós. parecem ansiosas em te ter. 

o barco vai parando. desligo a câmera, fecho o caderno. quase todos já foram. saio correndo para voltar até você.